quarta-feira, 30 de novembro de 2016

15 COISAS QUE MULHERES MADURAS NÃO FAZEM NUM RELACIONAMENTO por Sônia Penha

eu - junho 2016

Diferenças de personalidade existem, é o que nos torna únicas, mas, se não tomarmos cuidado, podem gerar desacordo e conflito no relacionamento. Para evitar isso confira algumas coisas que as mulheres maduras não fazem e que contribuem para um bom relacionamento.


1. Não sacrificam outros relacionamentos
Durante um relacionamento existem aqueles que se afastam dos amigos, porém, é importante lembrar que os amigos e familiares estão a mais tempo na sua vida. As mulheres maduras buscam o equilíbrio feliz entre aqueles que elas amam.

2. Não se esquecem de agradecer ao seu parceiro
Depois de algum tempo no relacionamento é fácil esquecer de apreciar as pequenas coisas que o parceiro faz. Para as mulheres maduras compartilhar sua vida com alguém é uma dádiva, por isso não se esquecem de dizer por favor e obrigada.

3. Valorizam a independência financeira
Mesmo que o companheiro tenha uma boa condição financeira, e ela não se envolve com homens que não procuram ter sua própria independência. As mulheres maduras gostam de ter sua independência financeira, mas se precisar sentem felizes em poder contribuir e aliviar o fardo do companheiro quando ele necessita sem cobrança.

4. Não se concentram nas características ruins do seu parceiro
As mulheres maduras buscam as características boas de seus parceiros, em vez daquilo que é ruim e negativo. Se concentram no que eles fazem e dizem de bom e tentam não os julgar por suas falhas, pois entendem que elas também as têm. Se precisar ela fala no ponto e ponto.

5. Não desistem dos seus sonhos
As mulheres maduras compreendem que o bom relacionamento traz o que há de melhor nelas e as incentiva a perseguir os seus sonhos, pois o contrário as faria infeliz.

6. Não pensam que a sua versão de felicidade seja a única
As mulheres maduras entendem que cada um tem seu modo de ser feliz. Se o parceiro precisa e gosta de espaço ou carinho, elas lhe dão em lugar de fazerem suposições sobre como fazê-lo feliz.

7. Não abrem mão do respeito próprio
É comum os cônjuges mudarem um pouco durante um relacionamento, mas o respeito próprio deve haver. As mulheres maduras não deixam que seus companheiros as tratem mal e falem de forma negativa, esperam que eles as tratem bem, aos filhos e a todos em sua vida.

8. Não subestimam as palavras "Eu te amo"
Não importa quanto tempo estejam juntos, as mulheres maduras compreendem o significado e a importância dessa expressão, demonstrando esse amor a cada dia nas atitudes e em palavras, nos momentos certos, para que seus companheiros saibam o quanto elas os apreciam.

9. Não abrem mão da felicidade
As mulheres maduras compreendem que devem ser felizes, que se elas não se sentem assim num relacionamento sabem que ambos precisam mudar e contribuir para conseguir essa felicidade e somente se isso não for possível devem buscar algo melhor. Ambos são parte dessa felicidade e devem ser alguém que pode trazer conforto e alegria nas horas de tristeza.

10. Sentem que não precisam estar em contato com seu parceiro sempre
As mulheres maduras não precisam estar em contato o tempo todo com seus companheiros, são seguras o suficiente para confiar neles e não desperdiçam seu tempo trocando e-mails e mensagens de texto a cada instante, mas usam seu tempo com sabedoria para realizar seus afazeres e edificar seu relacionamento.

11. Não deixam que seu parceiro tome todas as decisões
Num relacionamento maduro ambos respeitam as decisões de cada um. Desde grandes decisões, como se casar e ter filhos, até as mais simples, como que programa irão fazer à noite. Ambos devem considerar as decisões um do outro fazendo com que elas contribuam para o fortalecimento do amor e a felicidade de ambos.
* por exemplo: (o rompimento de um antigo relacionamento que tive há algum tempo atrás se deu quando o pai da minha filha caçula decidiu por conta própria aproveitar de uma ocasião que eu estava bêbada sem uso de anticoncepcional - aguardando colocação do DIU - e usou da prerrogativa da confiança que eu tinha nele para fazer sexo neste período mesmo ciente de uma possível gravidez tudo isso para realizar seu sonho e não o meu naquele momento. Ele rompeu nosso pacto, quebrou a confiança. Senti traída e desrespeitada na minha individualidade. Fiquei grávida 2 dias antes da colocação do DIU. Não aceitei. Separamos)

12. Não compartilham sua relação com o mundo
As mulheres maduras entendem a importância e o valor de manter a relação entre ela e o seu parceiro. Não gostam que o mundo saiba tudo sobre sua relação e suas coisas particulares, evitam apresentar sua vida e argumentos nas mídias sociais, família, parentes, amigos e se concentram em comunicar com o seu parceiro para resolver os problemas e expressar o seu amor e sentimentos.

13. Não abrem mão do seu espaço
As mulheres maduras, mesmo com um relacionamento maravilhoso, apreciam e precisam, às vezes, de um tempo sozinhas para ir à academia, ler um bom livro, viajar com filhos ou sozinha, realizar algo bom; valorizam esse tempo para crescerem, serem mais felizes e assim poder contribuir positivamente no relacionamento.

14. Não se ressentem com as conquistas do seu parceiro

Amar alguém significa querer que ele seja tão feliz quanto possível, e as mulheres maduras entendem isso e desejam isso para o seu parceiro. Elas abraçam a felicidade dele e celebram suas conquistas, em vez de freá-los por razões egoístas.

15. Não abrem mão de sua identidade

Num relacionamento é normal ficarmos atraídos pelos interesses e passatempos do parceiro por ser divertido compartilhar interesses comuns, mas as mulheres maduras não perdem seus próprios interesses, elas participam de ambos, valorizando e incentivando o que cada um gosta, proporcionando paz e bem-estar na sua relação.

A relação que temos com nosso parceiro precisa ser um dos motivos de maior recompensa na vida. A pessoa com a qual partilhamos momentos de alegria deve ter um lugar especial. As mulheres maduras compreendem isso e procuram, sem comprometer sua felicidade, tornar sua relação mais feliz, saudável e forte do que os problemas.



O QUE VOCÊ GOSTARIA DE TER OUVIDO QUANDO ERA UM ESTUDANTE DE DIREITO?


Dedico a minha filha, Maria Eduarda Carrilho, para que ela possa escolher seu futuro profissional de forma consciente; que esta escolha possa trazer além da realização a alegria de fazer o que gosta, seja feliz. Eu torço muito por ela. Sempre! Amo você, filha.

Mamãe

Minha filha, Maria Eduarda Carvalho Carrilho Clebicar Nogueira 


Foi pensando nessa pergunta que escrevi esses conselhos com coisas que ouvi (mas não segui) ou gostaria de ter ouvido durante a faculdade. São conselhos que valem para os vestibulandos, estudantes do início da faculdade, formandos, jovens advogados, servidores públicos… enfim, para todos que respiram.



1. Leia de tudo

Veja o que eu disse: “leia de tudo”.

“Evinilson (as pessoas erram meu nome…), quer dizer que devo ler todas as matérias jurídicas?”. Não. Leia de tudo!

“Quer dizer Filosofia, Sociologia e Política?”. Novamente, não. Leia TUDO!

Quando digo tudo, quero dizer não apenas Direito, mas também Filosofia, Sociologia, Português, Literatura, Política, Física, Química, Biologia, Economia, Administração, Marketing, notícias, Revista Donna, gibis da Turma da Mônica e tudo mais que aparecer na sua frente. Qualquer leitura, ainda que aparentemente inútil, vai agregar algum conhecimento que, cedo ou tarde, será utilizado. Você só ligará os pontos no futuro.

No início da faculdade, estava na biblioteca estudando para uma prova. Vi que alguém havia deixado em cima da mesa um livro de uma disciplina que eu estudaria apenas alguns semestres depois. O título chamou a minha atenção. Então li por uns 30 minutos as partes que considerava mais importantes. Alguns anos depois, estava sentado diante de uma seleta banca de examinadores na prova oral da Defensoria. Em uma das respostas, mencionei esse livro. O examinador me interrompeu perguntando se eu tive acesso a essa obra. Respondi que sim e, então, ele sorriu.

No futuro, você ouvirá – se ainda não ouviu – sobre interdisciplinaridade, multidisciplinaridade e transdisciplinaridade. Em termos gerais, essas palavras significam a utilização de várias matérias diferentes para analisar algo. O profissional do presente já necessita dessas habilidades. O do futuro não sobreviverá no mercado sem elas.

Imagine conseguir relacionar a interpretação de um dispositivo legal com um texto literário, como Os miseráveis. Ou pensar na estrutura do Judiciário por meio de conceitos biológicos. Se isso não te interessa, veja por outro lado: quanto mais temas diferentes você ler, mais conteúdo terá para conversar com seus clientes, empregadores e colegas de profissão no futuro.


2. Vá aos livros, mas não tire os olhos da vida
Essa é uma frase autoexplicativa que ouvi do meu professor e amigo Hélio Coelho, mas, por algum tempo, não a apliquei na minha vida.

Busque o conhecimento, estude, atualize-se, mas não se permita ser um técnico desumano. Os livros apenas fornecem o conhecimento, mas é a vida que nos ensina o que fazer com ele.

Viver para os livros e não trazer os livros para a vida é um enorme perigo. Com o tempo, você verá apenas folhas de papel e letras em Arial 12, esquecendo-se de que, por trás de tudo isso, há pessoas concretas, de carne e osso, cujas vidas dependem do resultado desse processo.

Se você pretende advogar, precisará estudar muito, mas também deve estar inserido na sociedade, participar de eventos e de associações, conhecer pessoas etc. Há um ditado que diz: quem não é visto não é lembrado.


3. Saiba que seus únicos "patrimônios" são: nome, conhecimento e pessoas.
Quanto ao seu nome, refiro-me à forma como a sociedade te enxerga. Isso demora vários anos para ser construído e apenas alguns segundos para ser destruído. Seja e transmita a ideia de que você é responsável, honesto e ético. Isso vale para quem vai passar por uma investigação de vida pregressa em algum concurso ou para quem quer construir uma carreira sólida na iniciativa privada.

O conhecimento é seu instrumento de trabalho em qualquer carreira que você desejar seguir. Se você perder tudo, mas ainda tiver conhecimento, reconstruirá tudo que perdeu. Qualifique-se continuamente. De preferência, especialize-se e busque a excelência em determinada área, sem, contudo, deixar de ler outras disciplinas.

Há várias frases sobre a importância das pessoas na sua vida profissional e pessoal. Uma delas diz que “você é a média das 5 pessoas com quem mais convive”. Outra é que “se você quiser ir rápido, vá sozinho, mas se quiser ir longe, vá acompanhado.” Valorize as pessoas que estão ao seu lado desde o início, traga novas pessoas para a sua jornada e entenda que pessoas valem muito mais do que coisas.


4. Pense na vida que você quer ter antes de pensar no dinheiro que quer receber
Não estou dizendo que pensar no salário, honorários, subsídios ou qualquer coisa semelhante não seja relevante. Apenas entendo que você deva considerar a vida que quer ter antes de pensar especificamente nisso.

Quando fui Defensor Público, ouvi alguém me dizendo “por quanto você vendeu o seu maior sonho?”. Como diz o Clóvis de Barros Filho, “isso fere a alma”. Se você pensar em dinheiro antes de pensar no seu sonho ou na vida que deseja, essa pergunta sempre valerá para você. Você estará trocando seu sonho por um valor mensal. Isso é permitido, mas não é recomendável.

E não pense que você está trocando seu sonho pela única oportunidade que existe. Não há falta de oportunidades, mas sim falta de conhecimento sobre as oportunidades que existem. Costumo dizer que temos poucas opções: aquela que pensamos ser a única e todas as outras. Felizmente, você está no curso que oferece mais oportunidades.


5. Ouça os mais experientes.
Primeiro, não tenha medo de pedir conselhos e fazer perguntas a pessoas que estão em um nível profissional acima do seu. Essas pessoas estão sempre dispostas a abrir um espaço na agenda para conversar sobre os desafios que enfrentaram e dar suas valiosas opiniões.

Eu me lembro de que, no quarto semestre da faculdade, enviei um e-mail para um renomado autor de Direito Civil com uma pergunta. Estava muito preocupado com os termos que usaria, se chamaria de doutor, professor ou Excelência. No final, a resposta veio em menos de 24 horas em tom absolutamente informal.

Quando alguém me manda mensagem perguntando sobre tema do TCC ou algo parecido, normalmente minhas respostas têm 10 vezes o número de linhas da pergunta. Alguém pedir a sua opinião é uma das maiores formas de elogio que existe.

Dedique um tempo para conversar com essas pessoas mais experientes, pergunte qual é a melhor lição que poderiam te passar nesse momento e ouça atentamente. Se não conseguir encontrá-las, vá à Subseção da OAB de sua cidade ou à sede da Seccional do seu Estado. Tente fazer uma entrevista com o membro do Judiciário, do Ministério Público ou da Defensoria Pública da sua cidade.

Vamos fazer um desafio? Envie hoje uma mensagem ou um e-mail para alguém mais experiente que você. Pode ser seu ídolo em determinada disciplina, o seu autor favorito ou aquele professor que você pensa ser inacessível. E depois me diga se ele respondeu.


6. Ajude os menos experientes
Enquanto você está na faculdade, faça grupos de estudos, ofereça-se para ser monitor e ensine quem tem alguma dificuldade em determinada matéria. Depois de formado, dê aulas e palestras, ensine e seja voluntário em tudo que você puder.

Se os conselhos 5 e 6 forem aplicados conjuntamente, muitos procurarão os mais experientes e outros ajudarão os menos experientes, criando uma grande corrente do bem. A comunidade jurídica ficará muito mais qualificada e fortalecida.

Nem se cogite a ideia de que, ajudando os menos experientes, você terá mais concorrentes no futuro. Na verdade, é muito provável que o seu colega ajudado se transforme em um parceiro futuramente. Quando você ajuda alguém, o seu nome (conselho 3) passa a ter um novo defensor, alguém para dizer o quanto você é competente e altruísta. Sobre isso, recomendo a leitura do livro “Dar e receber”, de Adam Grant.

Na área criminal, esse tratamento fidalgo é percebido de forma mais fácil. Basta lembrar que o grande Criminalista Márcio Thomaz Bastos, no auge da sua carreira, dedicava-se a ensinar aos mais jovens e fazer parcerias com eles. Os bons Criminalistas gostam de ensinar e admiram os seus mentores do passado ou do presente.


7. Saia da zona de conforto todos os dias
Há praticamente 1 milhão de advogados no Brasil. O número de bacharéis em Direito é significativamente superior a isso. No meio dessa multidão, você pode ser apenas mais um ou pode buscar aquele desejável ponto acima da média.

A zona de conforto é onde o mediano/medíocre se encontra. Por outro lado, o desconforto é aquele ponto doloroso em que os verdadeiros resultados acontecem. A busca pela concretização de suas metas depende da constância desses projetos e desse desconforto. Se você quer conseguir um estágio, procure por uma vaga todos os dias. Se pretende passar em um concurso, dedique-se diariamente pelo tempo que for necessário.

Tudo que você fizer contribui ou não para alcançar o resultado que você deseja. Não existe meio-termo.

Se você não sente desconforto enquanto estuda, provavelmente não está dando o seu máximo. O desconforto é o melhor termômetro de nossa dedicação. Para um advogado, por exemplo, o conforto é ficar sentado no escritório vendo o tempo passar. Evidentemente, isso não é dedicação.

Busque superar os seus limites todos os dias. Estude um pouco mais do que você aguenta e não fique restrito às anotações da aula. Faça perguntas durante a aula, mesmo que seu coração fique acelerado e você comece a gaguejar. Seja hoje melhor do que foi ontem.


8. Não pense em cedo/tarde ou novo/velho
Alguns pensam que são novos demais ou que é muito cedo para fazer algo. Não existe “cedo”. A resposta é muito simples: não há treino para a vida. Tudo é vida. E fazer algo imperfeito é melhor do que não fazer aquilo que você imagina ser perfeito. Em outros termos, feito é melhor do que perfeito.

Portanto, faça aquela prova de estágio para a qual você imagina que não está preparado. Inscreva-se no concurso mesmo sem ter estudado por muito tempo. Faça a prova da OAB na primeira oportunidade em que isso for possível. Arrisque-se! Se você não tentar, terá 0% de chance de conseguir qualquer coisa.

Também não pense que é tarde ou que está velho demais para algo. A idade é apenas um número. O Direito é uma atividade intelectual e, enquanto você tiver ideias, ainda dá tempo de advogar, fazer concurso, publicar algo, dar aula e, principalmente, viver.

Em suma, afaste do seu vocabulário essas noções de tempo. Apenas faça o que precisa fazer neste exato momento.


9. Não seja tão dependente do impulso dos outros
Se você for sempre dependente do impulso de professores e orientadores, ficará desnorteado depois que o curso terminar. O seu curso durará 5 anos, mas seu período de aprendizagem terá inúmeras décadas.

Treine a habilidade de aprender sozinho e independentemente da cobrança de terceiros. Há um ditado que diz: “quem faz a faculdade é o aluno”. Assim, leia livros que seu professor não recomendou, revise as matérias que você já teve na faculdade, estude por conta própria aquelas matérias que você ainda não teve e leia os clássicos mesmo que seu professor indique livros esquematizados, mastigados ou resumidos.

Se deseja ser Advogado Criminalista no futuro, leia tudo sobre os autores garantistas, entenda os pensamentos punitivistas e não se limite a ler ementas ementas de decisões, pois os votos vencidos podem ser uma enorme vantagem para o Criminalista.

Você é o maior interessado no seu sucesso.



Advogado. Mestre em Direito. Pós-graduado em Direito Penal e Processual Penal. Professor de Direito.



SUPERANDO A DOR DE UMA DESILUÇÃO por Padre Fábio de Melo



Muito bacana!!

Concordo iteris literis com tudo dito. Eu vivi este erro do amor platônico e romântico. Esta construção ou projeção deste personagem. Este fardo estava me matando por mais de uma década. Eu estava me sabotando e ferindo por medo de assumir a verdade.
Finalmente aceitei. 
Acabou tudo! 
As ilusões acabaram!
Desconectei... me soltei!
Consegui me libertar desta prisão mortal e cruel!
Roberta Carrilho







VOCÊ PODE ME PERDOAR?



Durante a nossa vida causamos transtornos na vida de muitas pessoas, porque somos imperfeitos. Nas esquinas da vida, pronunciamos palavras inadequadas, falamos sem necessidade, incomodamos.

Nas relações mais próximas, agredimos sem intenção ou intencionalmente. Mas agredimos. Não respeitamos o tempo do outro, a história do outro. Parece que o mundo gira em torno dos nossos desejos e o outro é apenas um detalhe. E, assim, vamos causando transtornos. Esses tantos transtornos mostram que não estamos prontos, mas em construção. Tijolo a tijolo, o templo da nossa história vai ganhando forma. O outro também está em construção e também causa transtornos. E, às vezes, um tijolo cai e nos machuca. Outras vezes, é a cal ou o cimento que suja nosso rosto. E quando não é um, é outro. E o tempo todo nós temos que nos limpar e cuidar das feridas, assim como os outros que convivem conosco também têm de fazer. Os erros dos outros, os meus erros.

Os meus erros, os erros dos outros. Esta é uma conclusão essencial: *Todas as pessoas erram. *A partir dessa conclusão, chegamos a uma necessidade humana e cristã: o Perdão. Perdoar é cuidar das feridas e sujeiras. É compreender que os transtornos são muitas vezes involuntários. Que os erros dos outros são semelhantes aos meus erros e que, como caminhantes de uma jornada, é preciso olhar adiante. Se nos preocupamos com o que passou, com a poeira, com o tijolo caído, o horizonte deixará de ser contemplado.

E será um desperdício. O convite que faço é que você experimente a beleza do perdão. É um banho na alma! Deixa leve! 

Se eu errei, se eu o magoei, se eu o julguei mal, desculpe-me por todos esses transtornos, estou em construção!


Papa Francisco





terça-feira, 29 de novembro de 2016

CARTA ABERTA A FHC QUE MERECE IR PARA OS LIVROS DE HISTÓRIA por Theotonio dos Santos

Uma das manifestações públicas mais demolidoras da nossa história política recente
Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente do Brasil


Segue uma Carta Aberta de Theotonio dos Santos, economista, cientista político e um dos formuladores da Teoria da Dependência. Hoje é um dos principais expoentes da Teoria do Sistema Mundo. Mestre em Ciência Política pela UnB e doutor “notório saber” pela UFMG e pela UFF. Coordenador da cátedra e rede UNU-UNESCO de Economia Global e Desenvolvimento sustentável – REGGEN.

Meu caro Fernando,

Vejo-me na obrigação de responder a carta aberta que você dirigiu ao Lula, em nome de uma velha polêmica que você e o José Serra iniciaram em 1978 contra o Rui Mauro Marini, eu, André Gunder Frank e Vânia Bambirra, rompendo com um esforço teórico comum que iniciamos no Chile na segunda metade dos nos 1960.

A discussão agora não é entre os cientistas sociais e sim a partir de uma experiência política que reflete contudo este debate teórico. Esta carta assinada por você como ex-presidente é uma defesa muito frágil teórica e politicamente de sua gestão. Quem a lê não pode compreender porque você saiu do governo com 23% de aprovação enquanto Lula deixa o seu governo com 96% de aprovação.Já discutimos em várias oportunidades os mitos que se criaram em torno dos chamados êxitos do seu governo. Já no seu governo vários estudiosos discutimos, o inevitável caminho de seu fracasso junto à maioria da população.

Pois as premissas teóricas em que baseava sua ação política eram profundamente equivocadas e contraditórias com os interesses da maioria da população. (Se os leitores têm interesse de conhecer o debate sobre estas bases teóricas lhe recomendo meu livro já esgotado: Teoria da Dependência: Balanço e Perspectivas, Editora Civilização Brasileira, Rio, 2000). Contudo nesta oportunidade me cabe concentrar-me nos mitos criados em torno do seu governo, os quais você repete exaustivamente nesta carta aberta. O primeiro mito é de que seu governo foi um êxito econômico a partir do fortalecimento do real e que o governo Lula estaria apoiado neste êxito alcançando assim resultados positivos que não quer compartilhar com vocêEm primeiro lugar vamos desmitificar a afirmação de que foi o plano real que acabou com a inflação.

Os dados mostram que até 1993 a economia mundial vivia uma hiperinflação na qual todas as economias apresentavam inflações superiores a 10%. A partir de 1994, TODAS AS ECONOMIAS DO MUNDO APRESENTARAM UMA QUEDA DA INFLAÇÃO PARA MENOS DE 10%. Claro que em cada país apareceram os “gênios” locais que se apresentaram como os autores desta queda. Mas isto é falso: tratava-se de um movimento planetário. No caso brasileiro, a nossa inflação girou, durante todo seu governo, próxima dos 10% mais altos.

TIVEMOS NO SEU GOVERNO UMA DAS MAIS ALTAS INFLAÇÕES DO MUNDO. E aqui chegamos no outro mito incrível. Segundo você e seus seguidores (e até setores de oposição ao seu governo que acreditam neste mito) sua política econômica assegurou a transformação do real numa moeda forte. Ora Fernando, sejamos cordatos: chamar uma moeda que começou em 1994 valendo 0,85 centavos por dólar e mantendo um valor falso até 1998, quando o próprio FMI exigia uma desvalorização de pelo menos uns 40% e o seu ministro da economia recusou-se a realizá-la “pelo menos até as eleições”, indicando assim a época em que esta desvalorização viria e quando os capitais estrangeiros deveriam sair do país antes de sua desvalorização, O fato é que quando você flexibilizou o cambio o real se desvalorizou chegando até a 4,00 reais por dólar. E não venha por a culpa da “ameaça petista” pois esta desvalorização ocorreu muito antes da “ameaça Lula”.

ORA, UMA MOEDA QUE SE DESVALORIZA 4 VEZES EM 8 ANOS PODE SER CONSIDERADA UMA MOEDA FORTE? Em que manual de economia? Que economista respeitável sustenta esta tese? Conclusões: O plano Real não derrubou a inflação e sim uma deflação mundial que fez cair as inflações no mundo inteiro. A inflação brasileira continuou sendo uma das maiores do mundo durante o seu governo. O real foi uma moeda drasticamente debilitada. Isto é evidente: quando nossa inflação esteve acima da inflação mundial por vários anos, nossa moeda tinha que ser altamente desvalorizada. De maneira suicida ela foi mantida artificialmente com um alto valor que levou à crise brutal de 1999.

Segundo mito – Segundo você, o seu governo foi um exemplo de rigor fiscal. Meu Deus: um governo que elevou a dívida pública do Brasil de uns 60 bilhões de reais em 1994 para mais de 850 bilhões de dólares quando entregou o governo ao Lula, oito anos depois, é um exemplo de rigor fiscal? Gostaria de saber que economista poderia sustentar esta tese. Isto é um dos casos mais sérios de irresponsabilidade fiscal em toda a história da humanidade.

E não adianta atribuir este endividamento colossal aos chamados “esqueletos” das dívidas dos estados, como o fez seu ministro de economia burlando a boa fé daqueles que preferiam não enfrentar a triste realidade de seu governo. Um governo que chegou a pagar 50% ao ano de juros por seus títulos para, em seguida, depositar os investimentos vindos do exterior em moeda forte a juros nominais de 3 a 4%, não pode fugir do fato de que criou uma dívida colossal só para atrair capitais do exterior para cobrir os déficits comerciais colossais gerados por uma moeda sobrevalorizada que impedia a exportação, agravada ainda mais pelos juros absurdos que pagava para cobrir o déficit que gerava.

Este nível de irresponsabilidade cambial se transforma em irresponsabilidade fiscal que o povo brasileiro pagou sob a forma de uma queda da renda de cada brasileiro pobre. Nem falar da brutal concentração de renda que esta política agravou drasticamente neste pais da maior concentração de renda no mundo. Vergonha, Fernando. Muita vergonha. Baixa a cabeça e entenda porque nem seus companheiros de partido querem se identificar com o seu governo…te obrigando a sair sozinho nesta tarefa insana.

Terceiro mito – Segundo você, o Brasil tinha dificuldade de pagar sua dívida externa por causa da ameaça de um caos econômico que se esperava do governo Lula. Fernando, não brinca com a compreensão das pessoas. Em 1999 o Brasil tinha chegado à drástica situação de ter perdido TODAS AS SUAS DIVISAS. Você teve que pedir ajuda ao seu amigo Clinton que colocou à sua disposição os 20 bilhões de dólares do tesouro dos Estados Unidos e mais uns 25 BILHÕES DE DÓLARES DO FMI, Banco Mundial e BID.

Tudo isto sem nenhuma garantia. Esperava-se aumentar as exportações do pais para gerar divisas para pagar esta dívida. O fracasso do setor exportador brasileiro mesmo com a espetacular desvalorização do real não permitiu juntar nenhum recurso em dólar para pagar a dívida. Não tem nada a ver com a ameaça de Lula. A ameaça de Lula existiu exatamente em consequência deste fracasso colossal de sua política macroeconômica. Sua política externa submissa aos interesses norte-americanos, apesar de algumas declarações críticas, ligava nossas exportações a uma economia decadente e um mercado já copado. A recusa dos seus neoliberais de promover uma política industrial na qual o Estado apoiava e orientava nossas exportações.

A loucura do endividamento interno colossal. A impossibilidade de realizar inversões públicas apesar dos enormes recursos obtidos com a venda de uns 100 bilhões de dólares de empresas brasileiras. Os juros mais altos do mundo que inviabilizava e ainda inviabiliza a competitividade de qualquer empresa. Enfim, UM FRACASSO ECONÔMICO ROTUNDO que se traduzia nos mais altos índices de risco do mundo, mesmo tratando-se de avaliadoras amigas. Uma dívida sem dinheiro para pagar… Fernando, o Lula não era ameaça de caos. Você era o caos. E o povo brasileiro correu tranquilamente o risco de eleger um torneiro mecânico e um partido de agitadores, segundo a avaliação de vocês, do que continuar a aventura econômica que você e seu partido criou para este país.

Gostaria de destacar a qualidade do seu governo em algum campo mas não posso fazê-lo nem no campo cultural para o qual foi chamado o nosso querido Francisco Weffort (neste então secretário geral do PT) e não criou um só museu, uma só campanha significativa. Que vergonha foi a comemoração dos 500 anos da “descoberta do Brasil”. E no plano educacional onde você não criou uma só universidade e entrou em choque com a maioria dos professores universitários sucateados em seus salários e em seu prestígio profissional.

Não Fernando, não posso reconhecer nada que não pudesse ser feito por um medíocre presidente. Lamento muito o destino do Serra. Se ele não ganhar esta eleição vai ficar sem mandato, mas esta é a política. Vocês vão ter que revisar profundamente esta tentativa de encerrar a Era Vargas com a qual se identifica tão fortemente nosso povo. E terão que pensar que o capitalismo dependente que São Paulo construiu não é o que o povo brasileiro quer. E por mais que vocês tenham alcançado o domínio da imprensa brasileira, devido suas alianças internacionais e nacionais, está claro que isto não poderia assegurar ao PSDB um governo querido pelo nosso povo. Vocês vão ficar na nossa história com um episódio de reação contra o verdadeiro progresso que Dilma nos promete aprofundar. Ela nos disse que a luta contra a desigualdade é o verdadeiro fundamento de uma política progressista.

E dessa política vocês estão fora. Apesar de tudo isto, me dá pena colocar em choque tão radical uma velha amizade. Apesar deste caminho tão equivocado, eu ainda gosto de vocês (e tenho a melhor recordação de Ruth) mas quero vocês longe do poder no Brasil. Como a grande maioria do povo brasileiro. Poderemos bater um papo inocente em algum congresso internacional se é que vocês algum dia voltarão a frequentar este mundo dos intelectuais afastados das lides do poder.

Com a melhor disposição possível, mas com amor à verdade, me despeço.


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

SÓ UMA COISA PODE FAZER A OUTRA PESSOA MUDAR by Liliya Ahremchik




Sempre que eu acabava algum relacionamento conturbado, ficava um bom tempo presa ao passado e, mesmo quando percebia que aquilo não levaria à nada, achava que poderia mudar alguma coisa. Quando a euforia da última relação passou, comecei a notar todas as peculiaridades psicológicas da outra pessoa. No fundo, eu conhecia todas elas, mas, como a maioria das pessoas, achava que poderia mudar algumas delas. Procurava artigos sobre diferentes tipos de personalidades, natureza da imaturidade humana, formas de manipulação, etc. 

E, claro, compartilhava essas informações nas redes sociais para que ele também as lesse. Era como se eu estivesse dizendo «olha, está acontecendo isso, você é assim, e assim, e assim, e deve fazer isso, isso e isso».

Adivinha o que eu recebia em troca. Agressão e desprezo. Que outro tipo de reação você esperava? Quando você mostra a uma pessoa os seus defeitos, dói muito. Todos os comportamentos especiais são uma proteção psicológica em relação às feridas emocionais. São estratégias de comportamento desenvolvidas durante anos e que permitem que você viva de maneira cômoda sem ser uma pessoa completa.

Agora, posso dizer com total segurança que uma pessoa pode mudar. Isso mesmo, ela realmente pode mudar. Mas apenas em um caso (leia atentamente): QUANDO ELA MESMA QUISER.

Provavelmente você acha que pode motivar o seu amor a mudar de personalidade ou os costumes por você. Não se engane. Você não tem tanta influência, ninguém tem. Talvez a outra pessoa possa se adaptar um pouco às suas exigências, mas mudar a forma de pensar e de agir da outra pessoa, isso não. 

Apenas quando alguém se cansa de ser infeliz, de não ter ’sucesso’, de reclamar que a vida não é o que ela esperava, ou de qualquer outro problema. Ou talvez quando, em algum sonho, ela perceber alguma coisa nova que a faça entender que ela não gosta da própria vida. Neste caso sim, ela pode mudar.

Mas pode ser que você já esteja longe do epicentro da explosão. E é melhor assim, desta forma a explosão não te afetará. Porque aceitar que «eu mesmo causei tudo o que aconteceu» não é nada fácil. Em geral, culpamos quem temos ao lado pelos fracassos e pelos erros, ou alguém que estava próximo. Até que compreendemos — e isso leva tempo — que nós mesmos somos culpados pelos nossos erros. 

Donald Walsch escreveu: «a melhor coisa que podemos fazer pela pessoa amada é deixá-la ser, para que ela tenha uma mostra maior de si mesma». Isso não é uma vergonha, não é um «vamos ver se você sobrevive sem mim». No final, cada um tem o direito de ser o que é. Mesmo que você, temporariamente, esteja junto dela (sim, temporariamente, porque nada é eterno), isso não te dá o direito de mudá-la.

Somos apenas responsáveis por nós mesmos. Nascemos sozinhos e deixaremos este mundo individualmente, cada um numa hora. Cada pessoa vive a própria vida.

A sua vontade pode apenas mudar a sua vida. Não tente ser uma espécie de Deus achando que tem o direito de influenciar o destino de outra pessoa. Deixe que ela decida e cuide de sua vida.

Alguns psicólogos defendem a seguinte ideia: não resolva um problema de um cliente até que ele peça. Na realidade, se ele não pedir ajuda, ele não é um cliente e o ideal é seguir a regra básica: não se meta onde não é chamado. Vale ressaltar que uma pessoa adulta e em sã consciência (claro que quem decide isso também não somos nós) é capaz de resolver os problemas dela ou pedir ajuda se não conseguir resolvê-los sozinha.

Transforme-se no criador do seu destino, isso é o melhor que você pode fazer. Se a pessoa ao seu lado quiser mudar, ela vai mudar. Ao realizar um sonho, você pode motivar e inspirar a pessoa ao seu lado. Se o seu caminho não parecer atrativo, tudo bem, ela vai achar o caminho dela. E você encontrará outra pessoa cuja jornada se alinhará à sua.



completando com um conto...


O CONTO DAS QUATRO ALMAS

Era uma vez quatro almas que nasceram na matéria. A primeira delas era um pouco mais esclarecida, e por isso, Deus lhe deu a missão de conduzir as outras três almas pelos caminhos da luz.

Logo após o nascimento, durante sua existência corporal, a primeira alma, mais esclarecida, foi ao encontro da segunda alma. Assim que a encontrou, pegou em sua mão e, de mãos dadas, a foi conduzindo pela escuridão. Após um tempo, apontou para ela o caminho da luz e a deixou seguir sozinha. Logo depois, foi ao encontro da segunda alma e fez a mesma coisa: pegou em sua mão e, de mãos dadas, a primeira alma conduziu a terceira alma pela escuridão, mostrando depois o caminho a ser seguido para a luz.

Assim que deixou a terceira alma, a primeira alma foi ao encontro da quarta e última alma que ela deveria auxiliar na vida corpórea. Fez exatamente o mesmo das duas primeiras: pegou em sua mão e, de mãos dadas, ambas começaram a caminhar juntas. No entanto, a quarta alma deu dois passos e logo depois parou. A primeira alma disse: “Vamos. Eu te mostrarei o caminho”. Mas a quarta alma retrucou: “Não quero ir. Prefiro permanecer aqui mesmo”.

A primeira alma insistiu: “Procure entender que aqui só existe escuridão. Mas há um lugar melhor para todas nós, almas de Deus, que é um local todo iluminado”. A quarta alma permaneceu irredutível e reafirmou: “Não me importo. Quero ficar aqui.”

Nesse momento, de mãos dadas, enquanto a primeira alma fazia força para frente, a quarta alma fazia força para trás, e força de uma anulava a força da outra. Acreditando saber o que é melhor, a primeira alma, ainda de mãos dadas, tentou convence-la e fez ainda mais força para que ambas seguissem, mas a quarta alma insistiu que preferia ficar, e por isso, fez mais força ainda para ficar onde estava. A primeira alma, mais esclarecida, acabou ficando presa nessa situação, de mãos dadas com a outra, tentando carrega-la e forçando seu caminhar, mas a quarta alma não queria de jeito nenhum seguir para a luz.

A vida material de ambas foi se esgotando, até que chegou ao fim. A primeira alma acabou ficando presa ao mundo, sem conseguir ir para a luz. A quarta alma também permaneceu presa à matéria, como era seu desejo. Por isso, as duas almas acabaram se transformando em fantasmas que perambulavam perdidas e erráticas pelo mundo astral da Terra.

Essa é uma lição que serve para todos nós. Aquele que pega na mão de uma pessoa e tenta leva-la ao melhor caminho, deve entender que o outro pode não querer ser ajudado e pode optar em permanecer estagnado onde está. Assim, quando damos a mão a alguém e essa pessoa não quer seguir em frente, o melhor é soltar sua mão e caminhar sem ela. Caso contrário, os dois ficarão estacionados, presos e o resultado será a perda de suas vidas.

Não jogue fora a sua vida tentando carregar os outros. Se a pessoa que você ama não quer se melhorar, solte sua mão e siga em frente. Não tente forçar a melhora do outro; não intente modificar alguém que não quer mudar; não imponha o desenvolvimento a ninguém. Respeite sua livre vontade de ficar onde está e não se melhorar. Se a pessoa não quiser caminhar, solte sua mão e caminhe você… Cada alma que vem a Terra é responsável apenas e tão somente pelo seu próprio destino. Ninguém pode forçar a caminhada daqueles que preferem ficar inertes e estacionados em seu próprio nível.

Hugo Lapa


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

AGORA É CIENTÍFICO: PESSOAS MAL AMADAS SENTEM MENOS EMPATIA por Pâmela Carbonari



Cientistas descobrem a relação entre o “hormônio do amor” e a falta de sensibilidade aos problemas dos outros

Quando estamos apaixonados tudo é mil maravilhas. Não interessa se faz frio, calor ou se você perdeu o ônibus – o importante é estar com a pessoa amada. Não que seu parceiro ou parceira não tenha parte nessa sensação de plenitude, mas a grande responsável é a oxitocina, conhecida como hormônio do amor. A oxitocina é aquele sentimento de bem-estar quando abraçamos uma pessoa querida. Ela é produzida no hipotálamo e liberada quando nos ligamos emocionalmente a alguém – podem ser laços familiares, românticos e de amizade.

Além de interferir no estado de espírito, o “hormônio do amor” controla várias funções vitais do organismos como apetite, sede, sono, libido e controle de estresse. Quando o corpo não dá conta de produzir ocitocina o suficiente, a forma como a reagimos aos estímulos sociais é diretamente afetada, como lidamos com a nossa vida social. O que os cientistas não sabiam era que isso poderia interferir também no que sentimos por outras pessoas. Um novo estudo realizado pela Universidade de Cardiff, no Reino Unido, descobriu que pessoas com baixos índices de ocitocina sentem menos empatia pelos outros.

Os cientistas avaliaram 20 indivíduos com diabetes insipidus CDI, que acontece quando o corpo não consegue tratar corretamente os fluidos. Trata-se de uma disfunção hormonal em que não há produção ou liberação dos hormônios diuréticos. Pacientes com CDI têm taxas muito reduzidas de vasopressina, o hormônio responsável pela controle da urina, cuja estrutura é muito parecida com a da ocitocina. Eles também acompanharam 15 pessoas com hipopituitarismo, uma condição que diminui a liberação dos hormônios sintetizados na hipófise – e, consequentemente, também da ocitocina. Esses dois grupos de pacientes com níveis baixos de “hormônio do amor” foram comparados com 20 pessoas saudáveis.

Todos eles fizeram duas atividades para testar suas demonstrações de empatia com base em reconhecimento das expressões de emoções. Além dos testes, os cientistas também examinaram os voluntários para medir as taxas de ocitocina e perceberam que os dois grupos doentes foram os que tiveram os piores resultados nas tarefas de empatia e os níveis mais baixos do hormônio. Ou seja, quanto menos hormônio do amor no organismo, menos sensibilidade aos problemas e sofrimentos alheios.

A pesquisa, apresentada na conferência anual da Sociedade de Endocrinologia, em Brighton, é pioneira ao estudar seres humanos com ocitocina reduzida (hormonalmente falando, os “mal amados”) como resultado de problemas clínicos e não a partir de disfunções psicológicas como depressão e estresse, por exemplo.

Os cientistas querem replicar o estudo para comprovar se a reposição da substância pode ser uma boa saída para melhorar as condições psicológicas dos pacientes que sofrem com poucas doses do hormônio do amor no organismo. Suplementação de ocitocina para aqueles casos em que um abraço não resolve.


terça-feira, 22 de novembro de 2016

FOTÓGRAFA CAPTURA BELEZA ÚNICA DOS ALBINOS por Camila Galvão


Yulia Taits é uma fotógrafa russa que mora em Israel desde 1995. Recentemente, ela teve a ideia de fazer um projeto apenas com pessoas albinas, por considerá-las de uma beleza hipnotizante. Como resultado, a série intitulada “Porcelain Beauty” ressalta a beleza em meio a cenários mágicos, usando animais e objetos brancos para aumentar o clima de encantamento. Confira:

1. Zohar


2. Sahar


3. Eliran


4. Sahar


5. Russell


6.Ori


7. Shimon


8. Michal


9. Caesar


10. Adi


11. Eydan





sábado, 12 de novembro de 2016

PAPA FRANCISCO DIZ QUE ''COMUNISTAS PENSAM COMO OS CRISTÃOS''



O pontífice evitou falar do recém-eleito presidente dos Estados Unidos, Donald Trump



Roma – O papa Francisco afirmou que “são os comunistas os que pensam como os cristãos”, ao responder sobre se gostaria de uma sociedade de inspiração marxista, em entrevista publicada nesta sexta-feira no jornal italiano “La Repubblica”.

“São os comunistas os que pensam como os cristãos. Cristo falou de uma sociedade onde os pobres, os frágeis e os excluídos sejam os que decidam. Não os demagogos, mas o povo, os pobres, os que têm fé em Deus ou não, mas são eles a quem temos que ajudar a obter a igualdade e a liberdade”, explica Jorge Bergoglio.

Por isso, Francisco espera que os Movimentos Populares entrem na política, “mas não no político, nas lutas de poder, no egoísmo, na demagogia, no dinheiro, mas na política criativa e de grandes visões”.

O pontífice evitou falar do recém-eleito presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e assegurou que dos políticos só lhe interessa “os sofrimentos que sua maneira de proceder podem causar aos pobres e aos excluídos”.

Francisco explicou que sua maior preocupação é o drama dos refugiados e imigrantes, e reiterou que é necessário “acabar com os muros que dividem, tentar aumentar e estender o bem-estar, e para eles é necessário derrubar muros e construir pontes que permitam diminuir as desigualdades e dar mais liberdade e direitos”.

Sobre os supostos “adversários” que tem no seio da Igreja, Francisco assegurou que não os chamaria assim e que “a fé une todos, embora naturalmente cada um veja as coisas de maneira diferente”.


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

LOURDES, O AMOR MINEIRO DE LULA por Paulo Narciso



Luiz Inácio LULA da Silva e sua primeira esposa a Mineira, Maria de Lourdes de Montes Claros 

“O senhor é o senhor Luiz?”, perguntou o médico. “Sou”, respondeu o rapaz. O senhor precisa ser forte para ouvir o que vou lhe dizer. “Seu filho nasceu morto”, continuou o doutor. “É preciso ser mais forte ainda, porque sua mulher também morreu”. Assim Luiz Inácio Lula da Silva recebeu a notícia da morte de Maria de Lourdes da Silva, sua primeira mulher. Era manhã de segunda-feira, 7 de junho de 1971. Lourdes, nascida na zona rural de Montes Claros, foi, como seu marido, retirante da mesma seca de 1952. Unidos pelo destino, se conheceram em um bairro pobre de São Paulo, onde eram vizinhos. Em reportagem especial dos repórteres Paulo Narciso e Leo Drumond, o HOJE EM DIA refez esta parte da biografia do presidente, percorrendo, ao lado de sua primeira sogra, dona Hermínia, e do cunhado e amigo de juventude, Jacinto Ribeiro, o Lambari, a vila onde nasceu Lourdes, no Norte de Minas. Páginas 7 a 11, Especial.
Lula, até hoje, está convencido de que as mortes de sua primeira mulher e do filho foram causadas por negligência. Em depoimentos a Denise Paraná, na biografia autorizada “Lula, o Filho do Brasil”, ele revela a revolta de sua convicção:

“A Lourdes tinha ficado grávida e, no sétimo mês da gravidez, ela pegou hepatite. Ninguém me tira da cabeça que ela morreu por negligência da rede hospitalar do Brasil, por problemas de relaxamento médico. Porque ela estava com anemia profunda e uma hepatite crônica. Ela poderia ter sido melhor tratada. Morreu sem que houvesse nenhuma assistência para ela. Eu fui ao hospital e vi. Ela gritava, ela gritava, ela gritava. Não tinha um médico para atender, não tinha ninguém. Sinceramente, eu tenho muitas restrições a esses médicos que estavam no hospital. Hoje, eu tenho consciência de quanto um desgraçado de um pobre passa nos hospitais”.

Fugitivos da mesma seca de 1952 nos sertões de Pernambuco e de Montes Claros, a 3 mil quilômetros de distância entre si, Lula com 7 anos, Lourdes com 3, os dois se encontraram em São Paulo já mocinhos, vizinhos de uma casa de parede-meia no bairro operário da Ponte Preta.

Abandonada pelo marido quando estava grávida de Lula, já nos dias de nascer, dona Lindu recebeu carta do segundo filho mais velho, Jaime, que a chamava para São Paulo, supostamente a pedido do marido. O penúltimo dos filhos e caçula dos homens, Lula, havia escapado de morrer aos 4 anos, quando uma jumenta o ergueu pela boca, numa mordida, e só o largou depois de receber uma punhalada no pescoço.

Sem recursos para sustentar os filhos, dona Lindu vendeu as terras secas por 13 mil cruzeiros, vendeu o relógio, vendeu o jumento, vendeu os santos e as fotografias de família, e tomou o “pau-de-arara” com 7 filhos, um irmão, cunhada e sobrinho. Deixou apenas o cachorro, que aos cuidados de um tio, parou de comer e morreu de saudade dos meninos. Enquanto esperava o caminhão “pau-de-arara”, que atrasou, ela colocou os filhos num quartinho na bodega do Tozinho, e fechou a porta, para que o cachorro “Lobo” não visse os meninos e os meninos não vissem o cachorro. Dona Lindu estava determinada: “Vamos embora, ou bem ou mal, para morrer de fome, nós morremos em São Paulo”.

A viagem até o marido e o segundo filho, em Santos, durou exatos 13 dias e 13 noites, de l0 a 23 de dezembro de l952. Lula – que nunca havia saído de Vargem Comprida - viajou com uma única camisa, que chegou podre a São Paulo. O percurso foi feito todo na terra; havia poucos ônibus e os raros postos de gasolina não dispunham de banheiros. O motorista do “pau-de-arara” era quem punha ordem na hora das “necessidades” e disciplinava no meio do mato: “homens para um lado, mulheres para o outro”.

Lula descreve o “pau-de-arara”:

- É uma tábua atravessada na carroceria do caminhão. Não tem nem encosto atrás. Não é um banquinho de madeira. É uma tábua grudada na carroceria. Você senta e não tem encosto. A gente pode cair. Tinha umas 30, 40 pessoas dentro do caminhão. A gente dormia na calçada. Se esticava e começava a dormir ali. Ás vezes, com um cobertorzinho. E, de repente, a gente acordava embaixo da chuva e tinha de correr para debaixo do caminhão. Não cabia todo mundo. Ficava todo mundo amontoado debaixo do caminhão.

Ainda na saída de Pernambuco, numa noitinha, bateram na lataria da boleia, indicando que alguém estava com “precisão”. O caminhão parou no meio do mato e Lula e o irmão “Frei Chico”, 3 anos mais velho, que vinham sentados no banco de trás com as pernas de fora foram os primeiros a saltar. Mas, estava escuro, acharam o lugar perigoso, e o motorista arrancou com o caminhão. Lula e o irmão, deixados para trás, gritavam, correndo: “pára, pára, pára”, enquanto dona Lindu se desesperava na carroceria com os outros 5 filhos.


Na viagem

Quando entraram em Minas, os retirantes desceram pelo leste, em direção a Teófilo Otoni e Governador Valadares, quando poderiam ter seguido pela rota de Montes Claros, muito usada pelos retirantes nordestinos, especialmente pelos que vinham pelas “gaiolas” do Rio São Francisco até Pirapora. ”Frei Chico”, que se declara ateu apesar do “frei” no apelido, diz que o caminhão viajava com a lona abaixada e que se lembra apenas da cidade de Vassouras, no Rio. Ele tinha 10 anos.

Se tivessem passado por Montes Claros, poderiam ter cruzado com uma camioneta que, no mesmo mês do mesmo ano, levava os retirantes Lourdes e sua família para a garagem da Central do Brasil, onde tomaram o “trem baiano” para São Paulo.

O pai de Lula era estivador no Porto de Santos e se surpreendeu com a chegada da primeira família, naquela véspera de Natal. Com a prima de dona Lindu, ele já tinha filhos de 6 e 7 anos e a primeira coisa que perguntou, ao ver a família que não esperava, foi pelo cachorro “Lobo”, que havia ficado no sertão. “Cadê o cachorro?” Lula lamenta:

“Na verdade, meu pai estava pouco interessado que minha mãe viesse para cá, porque ele queria viver a vidinha dele com a mulher que ele tinha aqui, que era uma prima de minha mãe. Meu pai tinha saído de Pernambuco com essa prima, ela tinha desaparecido, mas ninguém tinha feito a relação entre o desaparecimento dela e a vinda do meu pai”.

E meu irmão, na carta, não conta essa história para minha mãe, só diz que meu pai queria que ela viesse para cá.

O estivador Aristides, carregador de sacos de café, bem ou mal, acolhe a primeira família, transfere a segunda mulher para outra casa e os aloja na casa principal. Ficava dois dias numa casa, dois dias na outra. Acabou pai de 18 filhos, oito com dona Lindu, fora os 4 que morreram, e 10 com a prima dona “Mocinha”. Os filhos, todos os filhos, não têm boas lembranças dele, e Lula chega a dizer nas suas memórias que o pai “cuidava mais dos cachorros que dos filhos”.

Tempos depois, quando ganhou uma “mangueirada” na cabeça, dona Lindu resolve, agora por iniciativa dela, deixar o marido, cansada dos maus tratos contra ela e os filhos. “E aí, para nós foi ótimo. Nós ficamos em liberdade? A gente passou a viver melhor. Era uma pobreza com liberdade. Então, a separação dos meus pais, no fundo, no fundo, foi uma grande liberdade” – comemorou Lula, que quase só podia trabalhar, pois era proibido de estudar pelo pai “analfabeto” que adorava comprar jornais quando andava de barco, “lendo” jornal muitas vezes de cabeça para baixo.

Os três irmãos mais velhos já trabalhavam e Lula e “Frei Chico” vendiam laranja, tapioca e amendoim, pelas ruas de Santos, além de carregarem feixes de lenha. Aos 10 anos, Lula vai com a mãe e os irmãos para São Paulo. Eles mudaram para um barraco, que “era tão barraco, que um dia despencou”. Algumas das irmãs já trabalhavam como empregadas domésticas e toda a mudança se resumia “numa tina e uma lata de leite Mococa, para guardar o pão e uma faca”. O que se tornaria presidente da República se lembra de que todos gozavam do seu pescoço curto: “eu era assim de tanto carregar lenha”.

Engraxate, tintureiro, telefonista, Lula ia mudando de emprego conforme mudava de endereços, mas servido de uma calça só, que a mãe lavava aos domingos. O sonho era ser motorista de caminhão, mas este dia não chegava. “Foi um período muito ruim. Muita miséria. Mas eu era um moleque feliz. Porque a gente era pobre, mas a gente tinha um mundo à nossa disposição”.

Na Vila Carioca, em mais de um endereço diferente, ele consegue entrar para o Senai, “no melhor período da minha infância”, toma o primeiro “fogo” da vida, um porre de vinho e cerveja, e começa a trabalhar na Fábrica de Parafusos Marte e, depois, na Fábrica Independência. Aqui, como torneiro-mecânico trabalhando à noite, o braço da prensa “fechou” e esmagou o dedo menor da sua mão esquerda. Com a indenização de 350 mil cruzeiros, Lula comprou móveis para a mãe e um terreninho. Mais: o dedo esmagado, envolto em curativos, despertaria a dó de Maria de Lourdes, que logo se tornaria vizinha. Era o encontro da moça de Montes Claros com o rapazinho de Vargem Comprida, em São Paulo, uma cidade já com milhões de habitantes.





Lambari

Era l965. Lula foi com a família morar na Ponte Preta, na Vila São José, divisa de São Caetano e São Paulo. Ele estava com um dedo a menos na mão esquerda, estava desempregado e “tinha muita miséria em casa”. Mas, uma miséria significativamente menor. A família já possuía um fogão de duas bocas e muitos catres velhos. ”Eu e o meu irmão colocamos o fogão bem no alto e nós íamos com muito orgulho em cima do caminhão. Afinal de contas, a gente já tinha um fogão”.

O seu plano de vida estava definido: “tudo o que eu queria era o que todo mundo quer - ter uma vida tranquila, ganhar meu salário. Queria casar e constituir minha família sem nenhuma ilusão”. Com 20 anos, nada sugeria o futuro líder de massas, bom orador, desinibido, convincente. Ao contrário, era tímido, trancado mesmo, pouco saliente, pouco “saído” - resumia sua mãe. Queria só ter casa, mulher e filhos Para isso, o destino havia feito sua parte.

Ao lado da casa, do outro lado da parede, morava Maria de Lourdes, com pai, mãe e três irmãos. Os retirantes de Montes Claros haviam dado a volta pelo mundo, no interior de São Paulo, e também acabavam de chegar, ali. Todos se tornaram amigos. Lambari, o melhor de todos – o amigo da juventude.

Mas, havia enchentes. A água do ribeirão teimoso vinha pela janela, misturada com água dos vasos sanitários, e acordava Lula quanto atingia o colchão. Resolveram mudar de novo e foram para o Jardim Patente. A família de Lourdes, com o mesmo problema, também se mudou.

Lá, os amigos, “amigos mesmos”, conhecidos de muitos anos, companheiros de festas, de bailes, de enchentes, de desemprego, de infortúnio, resolveram se namorar. Numa festa, Lula tomou três conhaques, criou coragem e fez a proposta. Lambari ajudou no consentimento, mas não ficou atrás. Passou a namorar a irmã de Lula mais nova, Tiana, ou Ruth, conforme lhe chamavam pelo nome de batismo ou pelo nome do registro civil.

Esta irmã tem a memória do clima: “Nossa adolescência foi uma fase gostosa. Ficamos conhecendo dona Hermínia, que virou sogra dele. Nós fizemos amizade, “uma amizade gostosa”. Lula nunca foi de namorar. A primeira namorada dele foi Lourdes. Tinha o Jacinto, que hoje a gente chama de Lambari, tinha o Toninho e o Zezinho. Tinha os bailinhos em casa de família, domingo à tarde. Tocava Ray Coniff, Carlos Alberto, Roberto Carlos. A gente bebia refrigerante”.

Maria de Lourdes, - “a morena de cabelos compridos, muito bonita, conservadora, sem nenhuma formação política, muito trabalhadora”, segundo Lula – já trabalhava como tecelã. Seus patrões a aconselharam e ela repetiu a Lula que ele não deveria se envolver com sindicatos. Sem maior empenho, ele tomou posse como diretor do sindicato em 24 de abril de l969 e se casou no dia 25 de maio, um mês depois.

A festa de casamento foi na casa da irmã Ruth, na Paulicéia, com batatinha, pão, sanduíche, bolo e guaraná. “Foi um casamento que tinha tudo para dar certo. E eles viviam muito bem”, recorda-se a irmã. Com as economias dos dois, compraram casa na rua que tinha 4 nomes, à medida que se encurvava. Sogros e cunhados moravam na rua Verão e Lula e Lourdes, na rua Outono. A casa tinha 2 quartos, sala e cozinha, logo reformada para receber o primeiro filho. A gravidez transcorria tranquila, até que, no 8º mês, Maria de Lourdes apareceu muito pálida, com os olhos amarelos.

Nas suas memórias, Lula descreve:

“Foi nesta casa que eu fiquei viúvo. Eu lembro que eu fui visitar ela num domingo. Ela estava numa situação deplorável no hospital, com um monte de gente no quarto. Ela gritava, eu fui chamar a enfermeira, a enfermeira não quis atender. Na segunda feira, eu fui levar a roupinha da criança. Cheguei lá e ela estava morta. Meu filho estava morto. Isso marcou muito a minha vida. Como morreu a Lourdes, morrem milhões de pessoas por aí nesse país sem ter o menor tratamento médico. Nós tínhamos planejado um filho, a gente queria ter um filho.

O velório de mãe e filho foi na rua Outono. O piso de tábua corrida afundou com o peso de tanta gente e a câmara ardente foi transferida para a copa. Lula descreve o estado em que ficou: “Eu fiquei muito tempo meio bobão. Eu ia no cemitério todo domingo, eu levava flores para colocar no túmulo dela. Eu, às vezes, ia sair de noite para qualquer lugar, mas quando eu ouvia música....não aguentava... e voltava para casa. Eu não tinha mais vontade de sair. Eu fiquei 3 anos e meio deprimido. Eu fiquei muito tempo meio borocoxô. Eu perdi o sentido da vida. Não tinha mais vontade de nada. Eu passei 3 anos sem namorar”.

(Por esta época, Lula conheceu a enfermeira Miriam Cordeiro, com quem teve uma filha. Começou a namorar Marisa, viúva de um metalúrgico, filho único, que nas horas vagas ajudava o pai no táxi e foi assassinado dentro do carro, num assalto. Lula era freguês do “fusquinha” do seu Cândido, que no táxi não parava de elogiar a beleza da nora viúva. Depois, Lula conheceu Marisa no Sindicato dos Metalúrgicos, casou-se com ela, registrou em seu nome o filho dela (Marcos) e tiveram mais 3 (Fábio Luiz, Sandro Luiz e Luiz Cláudio). “Seu” Cândido e a mulher foram padrinhos do primeiro filho do casal, mas ele morreu, também assassinado num assalto, como o filho).


Um amor

Enquanto o caminhão “pau-de-arara” conduzindo Lula descia de Vargem Comprida, hoje Caetés, uma outra família deixava o Norte de Minas. O lavrador Manoel de Bitu, irmão do padrasto de dona Hermínia, morava em Ibitinga, interior paulista, e queria que eles fossem para lá. O pai de Lourdes, João Evangelista, havia lançado sementes na encosta pedregosa do Morro Agudo, em plena estação das águas, mas a roça de milho e feijão não brotou – era a seca, na época das chuvas, a pior.

A mãe de dona Hermínia, casada pela segunda vez, havia morrido de parto, junto com a criança. Brasinho, mulato forte muito afeiçoado à menina Lourdes, de 3 anos, então lidera os retirantes em direção ao seu irmão, na cultura de algodão na fazenda paulista. Venderam 2 porcos, 2 cavalos e galinha e seguiram: Brasinho, dona Hermínia, com 22 anos, o marido Evangelista, o irmão dela, Mané Codorna e os 4 filhos do casal - Toninho, de 8 anos, Jacinto (Lambari) de 6, Lourdes, de 3, e Zezinho, de apenas 8 meses.

Os 48 quilômetros de Morro Agudo à gare da Central do Brasil em Montes Claros foram vencidos numa camioneta. Duro foi esperar o trem “maria-fumaça”, arranchados na calçada da Praça da Estação, com centenas de outros retirantes. Depois de dias de espera, quando fazia uma caçarolada de abóbora, o apito estridente convocou os retirantes, a abóbora foi atirada no saco de farinha, e todos se precipitaram no vagão de segunda e última classe.

A rotina nos dez dias seguintes até São Paulo, de baldeação em baldeação, é a epopeia de todo retirante que o “trem do sertão” levou e trouxe de São Paulo, sempre cheio, sempre melancólico, sempre carregado mais de saudades do que de apinhados passageiros.

Lances dramáticos não faltaram àquela caravana de mineiros. Toninho e Jacinto (Lambari) arrancaram algum dinheiro dos menos infelizes com a voz infantil, de 8 e 6 anos, que cantava, e suavizava, com a música sertaneja, o drama reprisado de outros. (Lambari, até hoje, canta musica sertaneja, toda 6ª feira, no restaurante Chabocão, em São Bernardo).

Aflição maior viveu dona Hermínia, futura sogra do presidente da República. Exausta, em pânico, ela apertava contra o peito o caçula Zezinho, de 8 meses – hoje afilhado de casamento de Lula. O menino tinha bronquite e a orientação do chefe do trem não admitia exceções: “quem morrer na viagem, vai ser atirado pela janela”. E toda vez que passava o chefe do trem, e olhava para a criança com bronquite, o chefe perguntava – “tá doente?”. Ela pronta respondia: “não senhor, não senhor, tá sadio, tá bom”, e segurava o menino mais forte, contra o peito, e o retinha, com a janela fechada.

Foi assim, nos mil e tantos quilômetros, 10 dias e 10 noites, dormindo no chão, nas calçadas. Na “imigração”, em São Paulo , e nas estações por onde passaram, os quatro meninos incharam o braço de tanto tomar vacina, 4 ou 5 num dia só. É que o pai Evangelista, doente do pulmão, tinha esperança de que as filas que se formavam em cada estação fossem para servir comida – mas eles\serviam vacinas. Manoel de Bitu os esperava em Ibitinga, interior de São Paulo. Foram depois para o plantio de mandioca na fazenda Ronca, onde havia escola, que não frequentavam, porque dona Hermínia os trancava em casa para sair cedo trabalhar na roça.

Na fazenda Barreiro, ficaram 9 anos como meeiros, e o fazendeiro sem filhos – Ernesto Saleno – quis adotar Lambari, com a pronta resistência da mãe, que preferia vê-lo caminhar 4 km, todo dia, para ir a escola – ele e os irmãos. Foi nesta época que os quatro ganharam registro de nascimento, atabalhoadamente providenciado pelo pai com o recurso de memória que dispunha: “este nasceu na sementeira do arroz..., aquele na colheita do milho..., a menina durante a chuvarada...”. Os registros apontam Miralta, distrito de Montes Claros, como o local de nascimento, e as data são imprecisas.

Nesta época, por 1 ano e precisos 26 dias, dona Hermínia foi tratar-se do pulmão, também ela, no Hospital Sanatório de Araraquara, e a menina Lourdes, assumiu o comando da casa. Seguiram depois para Bariri, já como arrendatários de terra que produzia amendoim, milho e mamona. Lambari fazia o curso de torneiro-mecânico do Senai em Ibitinga, bancado pelo fazendeiro que o queria adotar, e em Bariri compraram casa na cidade, onde passam a residir. Lambari arrendatário de uma tornearia, Toninho trabalhando na padaria e, Lourdes, na fábrica de óleo, enquanto completava o curso de corte e costura. Os pais eram “boias-frias”na colheita de café e algodão.



O ENCONTRO

O primo e servente de pedreiro Santinho, posteriormente levado de Montes Claros e adotado, já estava na capital de São Paulo e os chamou para lá, no vácuo do golpe de 64, começo de 65. Lambari alugou a casa 4 da rua 35, na Ponte Preta, e dias depois de trazer a família, era hora de receber, na casa ao lado, aquela família pernambucana, numerosa, encarapitada no caminhão que vinha da Vila Carioca e que exibia o fogão de duas bocas como precioso troféu.

Tangidos pela mesma seca, afinal estavam reunidos na parede-meia, que anexaria os dois destinos de retirantes: os de Minas, comandados por dona Hermínia, e os de Pernambuco, chefiados por dona Lindu, aquela mulher paciente e calma, brincalhona e otimista, incapaz de qualquer murmúrio ou queixa.

Sem móveis, sem nada, 8 pessoas no quarto e cozinha únicos, mas ainda assim mais confortáveis do que os vizinhos de Vargem Comprida, 10 ao todo (8 filhos e o primo Zé Graxa). Os de Minas passavam o dia com o radinho a pilha seguro na mão, no meio da sala, ouvindo Zé Bétio.

Lula era o rapazinho de bicicleta, que ficava na porta, mão na parede, num vai-e-vem eternos. Lourdes, com 17 anos, foi trabalhar na Tecelagem Damatex, de onde saiu para casar-se com o futuro presidente da República, cedendo a vaga para a prima Heloísa, sobrinha de dona Hermínia, que hoje mora em Montes Claros.

Lula recebia o seguro do dedo decepado e o ferimento chamou a atenção, e a dó, de Lourdes. Ele e Lambari saiam juntos para procurar o emprego que não havia em lugar nenhum. “Freio Chico” já era soldador e membro do “partidão”, e a simpática “Maria Baixinha”, enfermeira. Inventaram então os “bailinhos” de domingo, durante o dia, as excursões ao pico do Jaraguá, as sessões de cinema, as missas.

Lourdes, ainda só amiga, podia contar com Lula para toda festa, onde ela sempre queria demorar mais do que ele. Os japonesinhos ali sempre juntos, Olavo e Kiva, o primeiro virou padrinho de casamento e, o segundo, foi o que Lula teve de superar na preferência de Lourdes.

Vieram as enchentes, repetidas. Com o dinheiro da casa de Bariri compraram um imóvel na mesma rua 4, enquanto o pessoal de Lula, cortido pelas águas, foi para a Vila São José, a 3 quarteirões, ‘depois do rio”. A casa própria não intimidava a enchente e foram para o Jardim Patente, sempre na mesma região do Ipiranga, na fronteira de São Bernardo.

Dois meses depois, a família de Lula chegava à Vila Patente, instalando-se numa quadra acima. De tanto procurar emprego, na crise de 1965, Lula chorava: “eu, as vezes, parava no caminho e chorava muito...porque você perde a perspectiva”. A sorte começava a virar. Cansados de receber o mesmo “não” juntos, Lambari propôs, Lula aceitou, e os dois passaram a procurar empregos separados. No primeiro dia, um voltou torneiro-mecânico da Volks e, o outro, torneio-mecânico da Villares.

Os amigos se aproximavam mais. Lula, empurrado por 3 conhaques, passou a namorar Lourdes. Lambari escolheu Ruth, a última dos irmãos de Lula, mas demorou pouco o namoro. Dona Lindu sabia que ele namorava outras (“eu era sem vergonha, mesmo”) e o escorraçou como namorado da filha. Ao chegar em casa às l0 horas da noite, conta Lambari, Lula estava no sofá, namorando a irmã: - “Ô, meu, sua mãe já correu comigo de lá. É bom você também pegar sua linha. “Taturana” respondia: - “Dá um tempo, fica na sua.” E ficava.

Mais uma vez, as duas famílias mudaram de endereço. Lula foi para a Paulicéia, em São Bernardo do Campo, e dona Hermínia mudou-se para a rua Verão, nº 10, C , na Vila das Mercês, onde está até hoje, na companhia de Lambari, que se descasou.

Lula namorava lá, lá assistiu Lambari construir sua habitação sobre a laje no terreno de 5 metros por 25 e, de “roupinha branca e namorada a tiracolo, jornal domingueiro na mão, gozava o cunhado, misturando a masseira: “viu o que acontece, Lambari?..., você não quis estudar...”. Na rua Verão, foi testemunha da dificuldade dos sogros para pagar a segunda prestação da casa, quando o imóvel próprio da Ponte Preta foi vendido a um motorista de ônibus.

As enchentes desvalorizaram a casa. Toda pessoa que chegava para comprar, via a marca d'água na parede, media a altura dos filhos, via que ela dava no pescoço deles , e desistia.

Um motorista de ônibus comprou, pagou a primeira prestação e desistiu da segunda, porque nova enchente levou o paletó e os 800 cruzeiros que havia no bolso do paletó para pagar a prestação restante, deixando em dificuldade a família que também devia a Segunda prestação.

Da distante Paulicéia, em São Bernardo , Lula vinha namorar todas as noites. Na volta, cansando de esperar ônibus na via Anchieta desistia, retornava a pé e dormia na casa da sogra (“eu não ia pela estrada das Lágrimas, eu ia pela Marginal”). Lula achava cedo para casar, mas as circunstâncias amargas, segundo ele, o levaram a precipitar a escolha:

- Eu vivia uma vida desgraçada, eu tinha de catar bituca de cigarro no chão para fumar. Eu nunca tinha dinheiro para comprar o cigarro que eu gostava, que era o Continental. Eu comprava Kent. Então, quando eu resolvi casar eu disse: 

“Olha, já que a gente esta nessa vida desgraçada, sustentando casa, então vamos casar de uma vez e a gente se vira”.

Casaram-se na Igreja Nossa Senhora das Mercês, em 24 de maio de l969. Dois dias antes, haviam se casado no civil, ele de terno muito bem cortado, todo empertigado. Na despedida de solteiro, na Paulicéia, Lula quis reter a noiva para a primeira noite, mas dona Hermínia não permitiu, irredutível, mandando esperar o dia da igreja. Conciliadora, dona Lindu decretou: a noiva dorme aqui, o noivo vai dormir com a sogra, na Vila das Mercês. Lula protestou em vão – “mas, eu já sou casado”.

O casal foi morar no Moinho Velho, de aluguel. Depois de l ano, estava no novo nas vizinhanças da família mineira, na rua torta que começava como Primavera, evoluía para Verão, descia para Outono e acabava como Inverno. Dona Hermínia morava na rua Verão e Lula, agora na casa própria, se instalou na rua Outono.

A filha Lourdes ficou grávida e o casal – ele na Villares Equipamentos e ela tecelã da Datamex – construíram um quarto para a criança. A gravidez foi muito bem até o 8º mês. Tanto os médicos do emprego, quanto os particulares, diziam que tudo ia bem. Não ia.

O tom de gema de ovo no olho de Lourdes denunciava uma doença hepática não descoberta pelos médicos. Foi preciso que os parentes alertassem e Lula insistisse para que ela ficasse internada, numa quinta feira, no Hospital Modelo, em São Paulo. Para os médicos, as dores – queimação no estômago e vômitos prolongados - que faziam Lourdes gritar eram dores normais da gravidez.

Dona Hermínia conta que foi ao hospital, no sábado, acompanhada de Lula e de duas noras, levando frutas. A filha comeu uma pera, desta vez não vomitou, e todos voltaram para a casa, mais animados. No domingo, na visita coletiva das 14 horas, dona Hermínia estava de volta, com Lula. Os médicos, enfim, diagnosticaram a hepatite e a colocaram no isolamento, gemendo. Desesperada, a mãe perdeu-se no hospital e um médico a tranquilizou – “está em trabalho de parto, é normal”. Lula passa mal e toma uma tranquilizante, enquanto a sogra vai embora sozinha, desolada.

Na noite de domingo, Lula e Lambari, com esposa e cunhada, retornam ao hospital Modelo. O médico mandou esperar e depois autorizou que o irmão desse uma olhada na doente, que estava sedada e tinha tomado remédio para induzir a dilatação. Pela porta entreaberta, Lambari viu que Lourdes dormia.

O médico, enfático, disse aos cunhados: “Luiz, a criança está morta dentro da barriga, mas sua mulher não corre nenhum perigo. Ela está muito bem. Amanhã, traga a roupa da criança para o enterro”. Lambari se lembra que Lula aceitou o inevitável e pediu que lhe emprestasse dinheiro para o enterro do menino. Foram juntos comunicar a dona Hermínia que a filha não corria perigo. A mãe relutou, achou que estava sendo enganada, disse que a filha não escaparia e foram dormir.

Na segunda feira, 7 de junho de 1971, Lula, a mulher de Lambari e a cunhada Luzia foram para o Hospital. Lambari estava trabalhando na Volks, quando foi chamado pelo departamento social, que o mandava seguir para o hospital. Imaginou que era o dinheiro do sepultamento, passou no banco e foi. Encontrou-se com Lula, a cunhada e a esposa, na recepção, mas apenas os dois homens subiram para a porta da sala de parto.

As enfermeiras os viram chegar, e comentaram – “a família tá aí”. Esperaram muito. O médico saiu.

_ O senhor é o senhor Luiz?

_ Sou.

_ O senhor precisa ser forte para ouvir o que vou lhe dizer. Seu filho nasceu morto.

_ Eu já sabia. O médico me explicou, ontem.

_ O senhor precisa ser mais forte ainda, porque sua mulher também morreu.

Lula fez vômitos e encostou a cabeça na parede. Com a cabeça sempre na parede, ele girava o corpo contra a parede, girava... girava... girava...

(Na noite de domingo, soube-se depois, logo que Lula e Lambari saíram do hospital, Lourdes acordou, chamou pela mãe, chamou por Lula, e vomitou sangue. “A noite toda, ela vomitou pedaços do fígado”. Às 5h15m da manhã, os médicos retiraram a criança a ferros. Ás 7h15m, Lourdes morreu).

Lula e Lambari foram receber os corpos na porta do necrotério. Estavam cobertos por lençóis brancos e identificados. No lençol maior, a etiqueta indicava – Maria de Lourdes Silva. O “meninão”, de quase 4 quilos, tinha uma fita colante escrita “nati-morto”.

Lula explodiu:

_ Esses “fdp” colocaram este nome. Não era nem este o nome que eu queria para o meu filho!

(O nome – soube-se também depois – seria Fábio Luiz, o nome que Lula repetiu no primogênito do segundo casamento).

De volta

Dona Hermínia apoia-se numa bengala para caminhar. A intensa simpatia e a simplicidade minimizam este detalhe, mas ela sofreu desgaste na cabeça do fêmur e o ex-genro, já famoso, consegui-lhe uma cadeira de rodas, que ela não mais precisa.

Morando na mesma e modesta casa da Vila das Mercês, onde um presidente da República noivou e casou, ela ficou viúva em 1990. Mora com o filho Lambari e sai muito, anda por toda parte. Anda principalmente pelos bingos, e a voz da neta na secretária eletrônica do telefone resume: “Você ligou para dona Hermínia. No momento, fui até o bingo. Se demorar, é porque fiquei rica. Se não, voltarei logo. Por favor, ligue mais tarde. Obrigada”.

O olhar sereno, a voz mansa e doce, o cabelo pintado com discrição, nada sugere o sudário de uma vida de retirante e de mãe que sepultou a filha, a única. Aos 73 anos, está mais conservada que o irmão Mané Codorna, 10 anos mais moço, que foi com ela para São Paulo, e Henrique, de 70, que já a esperava lá, na seca de 1952.

Depois de 50 anos de ausência, a convite do HOJE EM DIA, ela levou o filho Lambari para conhecer, reconhecer, a casa de onde partiram, ele com apenas 6 anos. Foram com ela dois irmãos, um residente no Furadinho natal, e o outro morador de Montes Claros. Foram também filhos, sobrinhos e netos, rever a casa no meio do mato.

Já na entrada de Furadinho, o pequeno fazendeiro João Gonçalves de Souza, de 75 anos, reconhece dona Hermínia e recorda:

_ Eu assisti o seu casamento, em Vista Alegre. A senhora tinha 13 anos, muito bonita. O padre ainda perguntou – você ao menos sabe fazer um almoço?

Não sabia.

Mas sabe o fazendeiro, montado com garbo no cavalo, que ela é a primeira sogra de Lula. Aliás, “Lôla, aquele que manda em nós”.

Furadinho é um povoado a exatos 43 quilômetros do centro de Montes Claros. São minifúndios, ocupados por 40 famílias, quase todas evangélicas da Igreja de Deus – Avivamento Bíblico. O acesso é pela estrada de Januária, logo depois de Lavajinha. Ali, todos trabalham e vivem do campo e para o campo, numa região de penhascos, que difere completamente da topografia do Norte de Minas. São os “alcantis”, eles sabem, mas lamentam que estejam numa situação de grande ruína, depois que o banco deu de financiar suas atividades, estimulou uma fabriqueta de laticínios e impôs a compra de umas “vacas pretas”. As vacas morreram, ninguém deu conta de pagar os juros ao banco e todos estão muito endividados.

Lavajinha e Furadinho levam ao Morro Agudo, onde nasceu Lourdes, a primeira mulher de Lula. Quando dali saiu a caravana de retirantes, em 1952, o lugar era alegre, com muitas famílias, muitas festas e “domingadas”. Os bailes eram animados com uma vitrola manual e o primeiro trator, que destocou o terreno, causou furor e espanto.

Hoje, o morro agudo - uma alta montanha arredondada, que contrasta com os alcantis e batiza o local - é o única coisa que permanece imponente. O resto é esgotamento e desolação. Todos se mudaram a partir daquela época e as extensas pastagens resultam agora num campo de espinhos- agulha.

Cinquenta anos depois, este é o cenário que dona Hermínia e Lambari foram encontrar no retorno à casa velha, onde o pai dela, “seu” Jacinto, deu de criar uma cobra jibóia pela telhado, incumbida de comer as cobras venenosas, bem menores, mesmo a custo de cair dos caibros e assustar crianças, como a pequena Lourdes e o irmão Lambari.

Ao socavão esconso, que dá para o povoado de Barreiras, só se chega a pé. Nem o cavalo vai lá, porque o terreno é acidentado, tem pedras escorregadias e, depois delas, tem penhas e nas penhas precipícios.

Mesmo dependente da bengala, a sogra de Lula aceitou ir, guiando o filho Lambari, o maior amigo de juventude do presidente. Aquele que tinha com ele sociedade nos cigarros, partilhados também por “Maria Baixinha”, a irmã de Lula, dois anos mais velha do que o presidente, e dona dessas declarações:

“Eu e Lula sempre nos demos muito bem. Por exemplo, mais tarde, quando o Lula chegava de fogo em casa, era eu que dava banho nele. Quando ele namorava a Lourdes, ela saía com o irmão dela. Esse cara é o máximo, o Lambari, ele sabe coisa que vai deixar qualquer um impressionado. Eles passaram a mocidade toda juntos. Casaram e continuaram amigos. Nem irmãos eram tão amigos. Era uma amizade assim, a coisa mais bonita que podia existir”.

O encontro de Hermínia com os irmãos, antes de pegar a tosca estrada que permite chegar mais perto do Morro Agudo, é emocionante. Só não permitem lágrimas grossas porque o lugar não tem este costume. Mas, choram sim.

Por 2,3 km, em péssima estrada, nos aproximamos de carro do Morro Agudo, onde se pode ir “pelado” a qualquer tempo, avisa Mané Codorna, porque aqui não passa mesmo ninguém. Fomos.

Na procissão da saudade, o menino Adilson, de 6 anos, descalço, evoca o Lambari daqueles dias. A pé, entre espinhos, poeira, matas, córregos secos, subidas, descidas, colchetes, cancelas, mata-burros, a distância é de aproximadamente 2 quilômetros ou l hora. Normal para quem tem costume. Normal também para dona Hermínia, sua bengala e os 73 anos.

Na mesma hora em que Lula era recebido pelo presidente dos Estados Unidos, o primeiro amigo da juventude, Lambari, e sua mãe, a poucos metros já podiam ver o que sobrou da casa natal de Lourdes, deixada ali.

Apenas rijos esteios de aroeira, telhas silenciosas e adobes vermelhos pelo chão, que não se renderam à chuva, talvez porque nem chova mais ali, onde existia um riacho que descia da serra, esculpia na pedra, acordava os homens e adormecia as crianças.

Dona Hermínia chorou por dentro. Viu “um filme passar pela cabeça”, enquanto o menino Lambari ressurgiu dos seus 56 anos perguntando pela plantação de abacaxi, pela mangueira, pela vaca que o “pegou” onde costumava comer terra. “Parece que foi noutra vida”, resumiu a sogra de Lula, enquanto o irmão Henrique perguntava pelos passarinhos, que ninguém via, e Mané Codorna justificava, com acerto: “até os bichos gostam de movimento. Cantar pra quem?”

Na volta da bocaina, sentindo mais o caminho que a mãe de 73 anos, Lambari tomou a frente e repetiu o amigo Lula nos dias finais da campanha que o elegeu presidente da República:

_ Eu, que sou mais bonitinho, vou tirando retrato na frente. Você, Lambari, como é mais feio, vai dando autógrafo.

No miserável povoado de Lavajinha, que recolhe os votos da redondeza, historicamente um reduto governista, a vitória de Lula não foi menos expressiva do que em Montes Claros, onde teve 8 de cada 10 votos. Talvez até por causa do financiamento das “vacas pretas”. A história de que ele é genro de dona Hermínia também é sabida, mas não tanto que justifique a vitória de 121 votos contra 42 dados a José Serra, 2 brancos e 8 nulos, num total de 173 apurados.


Na posse

Em 1980, aos 64 anos, quando morria de câncer – doença que devasta a família materna de Lula -, dona Lindu soube no hospital que o filho estava preso, notícia que lhe vinha sendo poupada. Ela fez a observação: “Meu Deus, como que ele vai fazer tudo isso? Deve ter um anjo da guarda perto dele”. Dias depois, conversando com a nora, esposa de Zé Cuia, dona Lindu pediu um copo dágua, tomou, virou do lado e morreu.

Como ela, dona Hermínia admira profundamente o genro. A convite especial de Lula, dona Hermínia e Lambari, assistiram o presidente receber a faixa no parlatório, em Brasília. Os dois estavam dentro do Palácio do Planalto, ao lado dos irmãos de Lula, no núcleo mais íntimo da família, de pernambucanos e mineiros. E viram, e aplaudiram, o gesto solene em que o amigo retirante assumia o mais alto posto da República.

_ Dona Hermínia, naquele momento, a senhora pensou que sua filha poderia estar alí, como primeira dama do país?

_ Pensei, sim. E ela estava. Estava representada na honestidade de Lula e na lealdade de Marisa a Lula.




Pedidos

A casa de Mané Codorna, o tio da primeira mulher do presidente, e seus poucos móveis, quase nenhum, apesar de respirar mansuetude e quietação, bem pode servir a Lula quando desejar rever os momentos de pobreza material mais intensa que teve em São Paulo, de casa em casa, de bairro em bairro.

Se quiser, se algum dia for lá, onde nunca foi nenhum prefeito de Montes Claros nos 171 anos do município, o presidente pode também ouvir das crianças histórias muito parecidas com a que ele viveu na meninice.

A pedido do HOJE EM DIA, as crianças de 6 a 14 anos escreveram cartas ao presidente fazendo referências à conterrânea que foi sua primeira esposa. E nelas, o lamento é constante. Todos se queixam, e esperam ajuda, para que as escolas as recebam melhor, e não assistam aulas sentadas no chão. Também, pedem merenda melhor e ônibus decentes, que não as obrigue a andar, às vezes 4, 5 horas, toda madrugada para chegarem ao local das aulas.

E se ouvir os adultos conterrâneos de sua Maria de Lourdes da Silva, o presidente pode até determinar que a região ganhe uma grande maternidade, que impeça que as mulheres dali, como a sua Lourdes, morram na hora de ter filhos. Ali, morrer no parto é uma constante, até hoje. Em Montes Claros, pessoas morrem na porta dos hospitais, com frequência.

Como morreu Lourdes, em São Paulo, em l971, morreu a avó de Lourdes, mãe de Hermínia. Morreu a primeira mulher de Mané Codorna e morreu a mãe de Maria Nazaré de Freitas, que na igreja do Avivamento Bíblico narrou para todos a história do 5º parto de sua mãe, Maria Ribeiro da Silva, outra Silva, que morreu no parto triplo em que apenas ela sobreviveu.

E todos pedirão, por fim, em comovido silêncio, que o presidente dê a esta maternidade regional um nome que o acompanha e vela por ele – Maria de Lourdes da Silva, retirante de 22 anos, morta em 7 de junho de 1971.

* O jornalista Paulo Narciso, 52 anos, começou aos 15, no “O Jornal”, de Montes Claros. Aos 20, era repórter de Polícia do “Estado de Minas”, onde atuaria como editor e repórter especial. Aos 21, obteve menção honrosa no Prêmio Esso. Em 1975, ganhou o Prêmio Esso, com a reportagem “A Esperança Muito Passageira do Trem do Sertão”.